Empregados e empregadas da Caixa de todo o país iniciaram, na tarde desta quarta-feira (17), os debates do 41º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal (Conecef) com uma reflexão sobre o papel dos bancos públicos no desenvolvimento econômico e social.
A primeira mesa do evento contou com a participação do professor e pesquisador Marcello Rodrigues de Azevedo, doutor em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e autor de estudos sobre o sistema financeiro chinês, e do deputado federal Tadeu Veneri (PT-PR).
Politização da população e bancos públicos
Antes da exposição do professor e pesquisador Marcello Rodrigues de Azevedo, o deputado federal Tadeu Veneri (PT-PR) fez uma análise sobre os desafios da organização da classe trabalhadora diante das transformações no mundo do trabalho e do avanço da precarização.
Ao dirigir-se aos delegados e delegadas presentes, Veneri ressaltou a importância da conscientização política dos trabalhadores e alertou para os efeitos da chamada economia de plataformas.
“Nosso papel é politizar os trabalhadores. Não é possível que uma pessoa trabalhe 20 horas por dia para aplicativos e ainda acredite que ficará rica. Precisamos debater quem se beneficia desse modelo e quais são as consequências para a classe trabalhadora”, afirmou.
O parlamentar também destacou que a defesa dos bancos públicos deve estar associada à defesa dos empregos e do papel social dessas instituições. “Além de mantermos a Caixa e o Banco do Brasil públicos, precisamos defender os empregos e fortalecer o papel que essas instituições cumprem para o desenvolvimento do país”, disse.
Em sua intervenção, Veneri ainda chamou atenção para a necessidade de ampliar a mobilização social como instrumento de conquista de direitos. “O parlamento, por si só, não representa integralmente os interesses dos trabalhadores. As grandes conquistas da classe trabalhadora sempre ocorreram quando houve organização e pressão social. É a mobilização popular que cria as condições para avançar”, observou.
O deputado avaliou ainda que as mudanças demográficas, o envelhecimento da população e o distanciamento crescente das pessoas em relação aos processos eleitorais impõem novos desafios para os movimentos sociais e sindicais. “As eleições já não encantam como antes. Ao mesmo tempo, estamos diante de mudanças profundas na composição da sociedade. Isso exige novas formas de organização e diálogo com a população”, afirmou.
Para Veneri, a luta por melhores condições de trabalho também precisa ir além das reivindicações econômicas imediatas. “Muitas vezes as pessoas lutam para ampliar a Participação nos Lucros e Resultados, o que é legítimo, mas deixam de lutar pelo aumento real dos salários, que tem impacto permanente na valorização do trabalho. Precisamos retomar esse debate”, concluiu.
O sistema financeiro chinês
Na sequência, a primeira mesa do evento contou com a participação do professor e pesquisador Marcello Rodrigues de Azevedo, doutor em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e autor de estudos sobre o sistema financeiro chinês. Em sua exposição, o especialista apresentou a evolução da estrutura financeira da China e destacou como os bancos públicos foram utilizados como instrumentos estratégicos para impulsionar o desenvolvimento econômico do país.
Ao longo da apresentação, Marcello mostrou que a expansão econômica chinesa foi acompanhada pela construção de um robusto sistema financeiro público, composto por bancos de políticas públicas, bancos públicos comerciais e milhares de instituições regionais de desenvolvimento. Segundo os dados apresentados, atualmente a China possui três bancos políticos, seis bancos nacionais de políticas públicas e cerca de 1.650 bancos de desenvolvimento distribuídos em diferentes níveis territoriais.
O pesquisador destacou ainda que quatro dos cinco maiores bancos do mundo em ativos são chineses, resultado de uma estratégia de longo prazo voltada para o financiamento da infraestrutura, da industrialização, da inovação tecnológica e da ampliação do mercado interno.
Crédito como ferramenta de desenvolvimento
Ao responder aos questionamentos da equipe de imprensa da Contraf-CUT, Marcello ressaltou que a principal característica do modelo chinês é a subordinação do sistema financeiro aos objetivos estratégicos do desenvolvimento nacional.
“O sistema financeiro não pode existir apenas para atender aos interesses do próprio mercado financeiro. Na experiência chinesa, os bancos foram organizados para financiar infraestrutura, inovação tecnológica, agricultura, industrialização e desenvolvimento regional. O crédito é tratado como uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento do país”, afirmou.
Segundo ele, a experiência chinesa demonstra que os bancos públicos podem atuar como instrumentos de política econômica quando possuem diretrizes claras e compromisso com a economia real. Em vez de orientar suas operações exclusivamente pela lógica da rentabilidade de curto prazo, essas instituições financiam infraestrutura, desenvolvimento regional, inovação tecnológica, agricultura e projetos considerados estratégicos para o país.
Ao relacionar a experiência chinesa com a realidade brasileira, Marcello defendeu que o debate não deve se restringir à propriedade das instituições financeiras. “A grande questão não é simplesmente se o banco é público ou privado. A pergunta central é: a serviço de quem esse banco atua? A serviço da especulação financeira ou do desenvolvimento nacional? Essa é a reflexão que precisamos fazer no Brasil”, observou.
O pesquisador acrescentou que a discussão não passa necessariamente por mudanças abruptas, mas pela construção de um projeto nacional capaz de orientar a atuação das instituições financeiras públicas brasileiras.
Bancos políticos e bancos públicos comerciais
Outro ponto abordado durante o debate foi a diferença entre os chamados "bancos políticos" e os bancos públicos comerciais existentes na China.
Marcello explicou que os bancos políticos (conhecidos internacionalmente como policy banks) têm como missão principal executar políticas públicas definidas pelo Estado. Entre eles estão o Banco de Desenvolvimento da China, o Banco de Desenvolvimento Agrícola e o Banco de Exportação e Importação da China, responsáveis por financiar infraestrutura, agricultura, inovação tecnológica e comércio exterior.
“Na China existem bancos cuja missão não é maximizar lucro, mas cumprir objetivos estratégicos definidos pelo Estado. Eles financiam infraestrutura, agricultura, tecnologia e comércio exterior. São instrumentos de política econômica e não apenas instituições financeiras tradicionais”, explicou.
Já os bancos públicos comerciais atuam em atividades tradicionais do sistema bancário, como crédito, investimentos, poupança e serviços financeiros, mas continuam subordinados às estratégias nacionais de desenvolvimento. Entre eles estão o ICBC, o Banco Agrícola da China, o Banco da Construção da China e o Banco da China.
Marcello ressaltou que a existência de bancos privados não é incompatível com a presença de um forte sistema público. “O diferencial não está apenas na propriedade das instituições, mas na capacidade de coordenação do sistema financeiro em torno dos interesses nacionais e da economia real”, destacou.
Combate à concentração do crédito
A pulverização do crédito também foi tema do debate. Marcello apresentou o exemplo dos chamados "bancos de cantão e vilas", instituições criadas para atender regiões menores e ampliar o acesso ao crédito em áreas rurais e cidades de pequeno porte. Essas estruturas permitiram que o financiamento chegasse a setores que normalmente não seriam priorizados por instituições orientadas exclusivamente pelo retorno financeiro.
“O desenvolvimento não acontece apenas nas grandes cidades. A China criou instituições capazes de levar crédito para regiões menores, áreas rurais e pequenos empreendedores. Essa capilaridade foi fundamental para reduzir desigualdades e integrar economicamente o país”, afirmou.
Na avaliação do pesquisador, experiências dessa natureza ajudam a reduzir desigualdades regionais e fortalecer economias locais, ampliando o alcance das políticas públicas de desenvolvimento.
Sistema financeiro e emprego bancário
Questionado sobre os impactos da transformação digital e da expansão das fintechs sobre o emprego bancário, Marcello observou que a realidade chinesa difere significativamente da observada em diversos países ocidentais.
Segundo os dados apresentados no congresso, o sistema financeiro chinês mantém uma ampla rede de instituições e emprega cerca de 1,9 milhão de trabalhadores bancários, resultado de uma estratégia que combina digitalização, expansão dos serviços financeiros e presença física em diferentes regiões do país.
“A tecnologia pode servir para ampliar o acesso aos serviços financeiros e aumentar a eficiência do sistema. O problema não é a tecnologia em si, mas o modelo adotado. A experiência chinesa mostra que é possível combinar digitalização, expansão dos serviços e manutenção de uma ampla estrutura de atendimento”, avaliou.
Fundo Huijin e controle público
Outro tema que merece ser ressaltado é o Fundo Huijin, apontado por Marcello como uma das peças centrais da arquitetura financeira chinesa.
O fundo estatal detém participações majoritárias nos grandes bancos chineses e utiliza recursos oriundos das reservas internacionais para capitalizar instituições financeiras e preservar o controle público sobre o sistema. Segundo o especialista, isso permitiu que a abertura de capital de diversos bancos não significasse sua privatização efetiva.
“O Fundo Huijin é uma das peças centrais do sistema financeiro chinês. Ele permite que os grandes bancos tenham acesso ao mercado de capitais sem que o Estado perca o controle estratégico dessas instituições”, explicou.
PIX, soberania financeira e sistemas de pagamentos
Durante o debate, também foi discutida a crescente importância dos sistemas nacionais de pagamentos. Marcello lembrou que a China desenvolveu o CIPS, plataforma própria para liquidação de pagamentos internacionais, reduzindo a dependência de estruturas financeiras controladas pelos Estados Unidos e pela Europa. O sistema opera em diversas moedas e integra a estratégia chinesa de ampliação da soberania financeira e internacionalização econômica.
“A discussão sobre sistemas de pagamento não é apenas tecnológica. Ela envolve soberania. Quando um país desenvolve suas próprias plataformas de pagamentos e liquidação financeira, ele reduz sua dependência de estruturas controladas por outras potências”, afirmou.
Reflexão para o Brasil
Ao final da exposição, Marcello incitou que os participantes reflitam sobre uma série de questões sobre a realidade brasileira: se a atual estrutura de financiamento atende às necessidades do desenvolvimento nacional, qual é o efetivo papel dos bancos públicos brasileiros e até que ponto todo o sistema financeiro (público e privado) está comprometido com um projeto de desenvolvimento econômico e social para o país.
“A experiência chinesa não deve ser copiada mecanicamente. Cada país tem sua realidade. Mas ela demonstra que é possível construir um sistema financeiro comprometido com objetivos de desenvolvimento nacional. Essa talvez seja a principal reflexão que precisamos fazer no Brasil neste momento”, concluiu.
Para os delegados e delegadas presentes ao 41º Conecef, o debate trouxe elementos importantes para pensar o futuro da Caixa Econômica Federal e dos bancos públicos em um cenário marcado por profundas transformações tecnológicas, econômicas e geopolíticas.
O 41º Conecef segue até quinta-feira (18), debatendo temas estratégicos para os empregados da Caixa e para o fortalecimento do papel social do banco público no desenvolvimento do Brasil.
Fonte: Contraf-CUT