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30/06/2021 18:32 / Atualizado em 01/07/2021 09:54

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O que leva parte da população a não tomar a segunda dose da vacina contra a Covid-19 no Brasil

Movimento antivacina, aliado à difusão de um pensamento para desacreditar a ciência, apesar de todas as evidências da produção segura de imunizantes, é uma das causas apontadas por especialistas para a situação crítica da vacinação pública no país

A baixa adesão do cidadão brasileiro e em câmara lenta ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), com relação à segunda dose da vacina contra a Covid-19, oferece uma visão perturbadora para a estratégia de proteger o conjunto da população. Os sintomas desse abandono vacinal, problema que compromete a campanha brasileira para aumentar a lista de pessoas consideradas imunizadas contra o coronavírus, estão por toda parte. O movimento mundial antivacina, que vem construindo em diversos países um pensamento anticiência, apesar de todas as evidências da produção segura de imunizantes, é uma das principais causas apontadas por especialistas para a situação crítica no país.  
 
“A disseminação de informações falsas como a que defende a chamada imunidade de rebanho, devido aos riscos que traz para a sociedade, levou à crença de parte da população da não necessidade da vacinação pública, numa visão sem nenhuma evidência científica”, explica a epidemiologista Maria Juliana Moura Corrêa, doutora pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora associada da Fiocruz, coordenando a Rede de Informação e Comunicação sobre exposição ao Sars-Cov-2 em trabalhadores do Brasil. 

Ela argumenta que a imunidade de rebanho, tese que conta com o aval do governo Jair Bolsonaro, não vai ser alcançada e poderá levar, de maneira desnecessária e desordenada, a um volume grande de mortalidade das pessoas. “A vacinação pública é uma estratégia coletiva e constitui-se na única medida de caráter preventivo disponível”, salienta a epidemiologista, para quem, sem as duas doses, a população não fica imunizada e a situação tende a agravar-se drasticamente.  

A médica reforça a importância das duas doses para completar o ciclo vacinal de imunização contra a doença, ao mesmo tempo que defende ações urgentes para garantir maior segurança à população diante do crescimento de movimentos antivacina e das notícias falsas difundidas país afora. Segundo a especialista, como há casos de vacinas que enfrentam resistência por parte da população, apesar da segurança atestada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil dispõe de três tipos de imunizantes: um com vírus inativado, outro com vírus ativado e o que utiliza parte do material genético, como é o caso da vacina da Pfizer.

“O importante é tomar as duas doses da vacina para conter a epidemia. Todas já se mostraram efetivas. Cada vacina depende de que resposta se busca encontrar. Em relação ao Sars-Cov-2, a pergunta feita diz respeito a reduzir a gravidade do adoecimento e, portanto, reduzir a mortalidade. As vacinas são seguras, não há uma que seja melhor do que a outra, e possuem um esquema com medidas complementares”, pontua.

Durante a pandemia, a escassez de vacinas em algumas cidades brasileiras vira alvo de crítica e preocupação de Sergio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae). Há até mesmo o registro de quem precisou receber a segunda dose e não conseguiu concluir o esquema vacinal dentro do prazo recomendado, por conta da falta de imunizantes nos postos de saúde, por falhas na estratégia brasileira de distribuição e por desinformação, aliada ao medo de efeitos adversos. Apesar dessa situação crítica, Takemoto lembra o que sempre foi feito no Brasil, que dispõe de estrutura e capacidade para vacinar a população em tempo hábil, através de robustas campanhas nacionais envolvendo estados e munícipios. Ele defende que, mesmo com a baixa vacinação, as pessoas façam todo o esforço para ter acesso à segunda dose. 
 
Os argumentos do presidente da Fenae em favor de uma campanha nacional de imunização contra a Covid-19 estão refletidos negativamente em recente pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CMN). É que o levantamento da CMN registra a existência de pelo menos 1.426 cidades no país que não reservaram vacinas para assegurar a segunda dose, praticamente a metade de um total de 2.938 que responderam à consulta, culminando a situação em grave risco para complementar o esquema vacinal em parte da população. Todo esse contratempo, porém, vem sendo agravado ainda pela inexistência de planejamento governamental em relação a um cronograma seguro de entrega de imunizantes.  
 
Paralelo à necessidade da segunda aplicação, como condição para a eficácia de imunização do maior número possível de pessoas, Sergio Takemoto recorda a iniciativa da Fenae de preparar um mapa interativo para acompanhar estados e municípios com medidas para inclusão de bancários no grupo prioritário da vacinação contra o vírus da Covid-19. O dirigente defende que, por fazerem parte das categorias essenciais, indispensáveis para o atendimento à população durante a pandemia, os trabalhadores da Caixa e de outras instituições financeiras sejam incluídos entre as prioridades para receber a vacina com a urgência que requer o momento.  
 
A questão dos critérios de vacinação é também considerada importante pela epidemiologista Maria Juliana Corrêa, que acha ser equivocada a ausência no PNI de priorizar o conceito de exposição ao vírus. “É fundamental, portanto, que sejam priorizados os trabalhadores que se mantenham à frente dos postos de trabalho e ficam mais expostos a riscos do que o restante da população. Incluir os bancários no grupo prioritário do processo de vacinação visa, para o bem da saúde no país e na sociedade, reduzir a mortalidade e os adoecimentos desses trabalhadores”, resume.  
 
A pesquisadora Maria Juliana Corrêa indaga a respeito de o país, que era referência na vacinação em massa contra diversas doenças transmissíveis, conseguindo erradicar um conjunto de enfermidades no passado, patinar em torno do desafio de enfrentamento adequado da pandemia. Ela argumenta não ser possível colocar a vida das pessoas e das gerações futuras em risco por conta do período negacionista que está se vivendo. E denuncia: “Muito do que acontece no país está associado ao fato de as autoridades sanitárias e o governo se pautarem, desde o início da pandemia, por uma visão anticiência negacionista, recusando-se a adquirir vacinas suficientes para proteger a população brasileira”.

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