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06/05/2008 05:35 / Atualizado em 13/12/2008 10:55

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Lula diz em entrevista na TV que aumento dos combustíveis não vai alimentar a inflação

Brasília - Durante a entrevista concedida na noite de ontem (5), no Palácio do Planalto, ao jornalista Heródoto Barbeiro e exibida pela TV Cultura de São Paulo no Jornal da Cultura, o presidente Luís Inácio Lula da Silva falou sobre os principais temas que repercutem no país, como a obtenção do grau de investimento, o reajuste de preços dos combustíveis, que, segundo ele, não vai alimentar a inflação, o PAC (Programa de Aceleração de Crescimento); os gastos do governo; a greve dos servidores públicos; a política industrial para o Brasil, que será lançada no dia 12; e a aliança entre o PT e PSDB para a prefeitura de Belo Horizonte (MG). A seguir, a íntegra da entrevista, conforme transcrição fornecida pela TV Cultura.

Heródoto: Presidente Lula, muito obrigado pela entrevista aqui para a TV Cultura.

Lula: Heródoto, você sabe que é um prazer conversar com você, com a Cultura. Você sabe que a TV Cultura tem muito a ver com a minha vida política. A primeira entrevista que eu dei na vida foi para a TV Cultura. Não consegui dar a entrevista em pé porque começou a tremer as pernas, fui obrigado a sentar. E depois eu acho que o programa mais importante que eu participei na TV Cultura foi o "Vox Populi", em 78. Eu acho que foi um programa que marcou a minha vida, como entrevistado, e, sobretudo, porque a gente vivia um momento de ouro do movimento sindical com as greves no ABC. Portanto, eu me sinto em casa dando entrevista para a Cultura.


Heródoto: Presidente, depois que o Brasil recebeu o grau de investimento por uma das agências de risco internacional, há uma euforia na bolsa de valores e há mesmo recorde de pontos na bolsa. Eu gostaria de saber se o governo recebe com a mesma euforia ou se o governo está mais cauteloso em relação a essa classificação internacional?

Lula: Primeiro, nós temos que ter uma euforia comedida, porque o jogo tem muito tempo pela frente e nós sabemos que estamos construindo um processo de macroeconomia nesse país que vai levar algum tempo ainda para a gente poder estar consolidado como uma grande nação e como uma grande economia. Mas eu, Heródoto, acho que para que o povo entenda o que é que eu sinto é o seguinte: você imagina que você interna uma pessoa que você gosta num hospital, essa pessoa vai para a UTI, ou seja, e quando essa pessoa recebe alta, você vai ficar feliz. E eu estou feliz por isso, acho que o Brasil sofreu muito tempo, não foram anos, foram décadas e mais décadas e que agora o Brasil está sendo reconhecido pelo sacrifício que fez, a sociedade brasileira, pelo comportamento do congresso nacional, pelo comportamento do poder executivo, pelo comportamento dos trabalhadores e do empresário. Eu acho que houve uma combinação de esforços feita por todos os brasileiros, que permitiu que nós pudéssemos hoje estar felizes porque é uma coisa importante para o Brasil, é uma vantagem extraordinária nesse mundo globalizado. Agora, o que é que eu digo para os meus ministros: cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém. É importante a gente a gente estar feliz, mas é importante a gente continuar com a mesma preocupação de que o Brasil é um país em construção.

Heródoto: Presidente, o senhor acha que com esse grau de investimento, o Brasil vai integrar o conjunto do G8 (que reúne os sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia) ou do G9, caso o Brasil venha a ser convidado por esse grupo de nações mais desenvolvidas?

Lula: Veja, o G8 é uma composição política, ou seja, se dependesse do dinamismo da economia, o Brasil já estaria participando do G8. Entretanto, eu até brinco com os presidentes, com o (George W.) Bush, brincava com o (Jacques) Chirac, ou seja, o dia que o Brasil virar a quinta economia do mundo, vocês vão criar o G4, o dia que o Brasil a terceira, vocês vão criar o G2, o dia que o Brasil virar a segunda, vocês vão criar o G1, porque eu não sei se na cabeça do mundo desenvolvido está a idéia de um país que foi eternamente considerado um país emergente, participar de um bloco tão seleto, que é o bloco do G8. Eu acho que há uma movimentação, vários países que participam do G8 estão defendendo que hoje é incompatível reunir o G8 sem reunir o Brasil, sem reunir a China, sem reunir a Índia, sem reunir o México, ou seja, então as pessoas estão se dando conta que a economia globalizada e a participação de países emergentes, que eles chamam de BRICS, (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) como o caso do Brasil, é imprescindível, como você vai discutir meio ambiente hoje sem estar o Brasil presente, como é que você vai discutir alimento sem estar presente o Brasil. Então, eu penso que o mundo vai evoluir, não para que o Brasil faça parte do G8, mas eu acho que vai evoluir, para que mais países componham esse grupo seleto que discute os rumos da economia mundial.

Heródoto: Presidente, o governo também anunciou recentemente aumento do preço da gasolina e do óleo diesel. Esse realmente vai, realmente, se efetivar ou o governo pode voltar atrás temendo que isso possa alimentar a inflação brasileira?


Lula: Não, não vai alimentar a inflação porque nós fizemos um jogo combinado, ou seja, na medida em que nós fizemos o reajuste da gasolina e o reajuste do óleo diesel para a Petrobrás, ao mesmo tempo nós reduzimos a alíquota da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) para permitir que o aumento não chegasse ao consumidor. Portanto, quando você for a um posto de gasolina e eu assinei a medida provisória na sexta-feira, quando você for num posto de gasolina, que você for encher o seu tanque, o preço da gasolina tem que estar o mesmo, não pode ter aumentado, porque nós, na verdade, fizemos uma combinação com a CIDE para que o povo não sofresse o aumento, e para que não tivesse incidência sobre a inflação.

Heródoto: Presidente, o preço do álcool, já que nós estamos falando de combustíveis, flutua dependendo da produção, da gasolina está estável. Isso quer dizer que os preços da gasolina e do diesel são preços políticos?

Lula: Não, pelo contrário. Veja, nós trabalhamos com uma margem, eu diria, sábia, por conta da Petrobrás. Porque a verdade é que o custo da gasolina que nós produzimos no Brasil não é a totalidade do custo do petróleo internacional. Porque a verdade é que o petróleo internacional está 114, 120 dólares o barril, mas o custo nosso aqui dentro do Brasil para produzir a parte que nós extraímos não custa esse mesmo preço. Portanto, nós fizemos o reajuste no momento certo, na hora certa, e não tem nada de político. Tem, sabe, a gasolina e a Petrobrás têm que contribuir com a inflação, não é só os outros setores da economia, e nós achamos que está de bom tamanho esse preço, a Petrobrás não é uma empresa qualquer, é uma empresa muito grande e nós fizemos o reajuste porque entendíamos que era o momento de fazer o reajuste.

Heródoto: Presidente, os exportadores brasileiros têm razão de ficarem preocupados com esse grau de investimento e uma nova entrada bastante forte de dólares no Brasil ou o governo tem ou está elaborando uma política industrial para tentar segurar essa situação?

Lula: Eu, às vezes, Heródoto, fico pensando em tudo o que eu já falei na minha vida. Eu, às vezes, fico pensando tudo o que eu já sonhei, tudo o que eu já ouvi, ou seja, tudo...tudo que um brasileiro reivindicou nos últimos 50 anos era que o Brasil se dotasse de credibilidade para receber a entrada de muitos dólares no Brasil. Na hora que essa situação se apresenta, aparece as pessoas com medo que vai entrar muito dólar. Primeiro, eu quero que entre todos os dólares do mundo dentro do Brasil. Segundo, eu acho que nós temos que ter mecanismos para não misturar o dólar que entra para o setor produtivo, para construir uma fábrica, para gerar um emprego, com o dólar que vem para a especulação. Esse, nós já criamos o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), 1,5 por cento para tentar inibi-lo, se for preciso cria-se mais, o Conselho Monetário (Nacional) saberá o momento adequado de discutir isso. Agora, ao mesmo tempo, nós temos que ter uma preocupação com as nossas exportações porque o Brasil não quer construir déficit de conta corrente mais. Então, no dia 12 nós vamos ao Rio de Janeiro, na sede do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), lançar uma proposta de política industrial para o Brasil, que tem política de inovação tecnológica, que tem política de incentivo às exportações, que tem política de desoneração, ou seja, eu acho que é o mais importante movimento para o desenvolvimento industrial do Brasil que aconteceu nesses últimos cinqüenta anos, nós vamos anunciar no Rio de Janeiro, no próximo dia doze.

Heródoto: Presidente, aqueles mesmos analistas internacionais que dizem que a economia está indo bem, tanto que estão dando grau de investimento para ela, também fazem críticas dizendo que o estado brasileiro gasta muito, e eu pergunto ao senhor: o estado brasileiro gasta muito, os gastos públicos estão muito acelerados?

Lula: Olha, nós não gastamos muito porque não temos muito. Mas a verdade, Heródoto, é que há muito sofisma sobre a questão do estado brasileiro, ou seja, houve um tempo em que esse estado passou oito anos sem dar reajuste ao servidor público e não melhorou a vida do estado. E quando você não dá aumento para o funcionalismo público achando que você vai fazer contenção de despesa, o que você faz? Você faz contenção da qualidade de um serviço que o estado tem que prestar à sociedade. Se nós estamos construindo a quantidade de universidades que estamos construindo. Se nós estamos construindo a quantidade de escolas técnicas que estamos construindo. Se nós fizemos o PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), que é uma pequena revolução no ensino fundamental. Ora, nós precisamos contratar técnicos e professores para poder fazer essas escolas funcionar (sic). Quando nós vamos inaugurar mais três presídios de alta segurança nesse país, nós precisamos contratar agente penitenciário, nós precisamos contratar funcionários. O que é importante, não é discutir se o estado custa muito ou custa pouco. O que é importante é a gente discutir a qualidade do serviço que o estado presta ao contribuinte brasileiro. E nós não prestamos um bom atendimento. É preciso que a gente preste um bom serviço e para isso nós temos que fazer as reparações nas categorias profissionais que trabalham no estado. A segunda coisa, Heródoto, nós temos que ter em conta, é o seguinte: olhe, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) é, possivelmente, o mais importante investimento que esse país já fez. Eu digo sempre que o último grande investimento em infra-estrutura foi feito no governo (Ernesto) Geisel e naquele tempo a gente não (tinha) reserva e a gente não tinha dólar. A gente foi obrigado a tomar os petrodólares emprestados porque estava muito barato. Depois, viramos vítimas deles porque...porque os juros aumentaram e nós estávamos com uma dívida externa impagável. Certamente, você, como eu, fez muita campanha contra a dívida externa, fez muito discurso contra a dívida externa. Hoje nós estamos numa situação altamente confortável. Primeiro, porque nós temos quase duzentos bilhões de dólares de reserva. Segundo, porque nós estamos fazendo um PAC com recursos de governo e com recursos da empresas, ou seja, são 504 bilhões de reais, ou seja, mais de 270 bilhões de dólares, que vão transformar esse país num canteiro de obra, ou seja, você, a partir....as obras começaram com mais força agora no mês de março e abril. Eu estou indo....estou viajando o Brasil inteiro para dar serviço de ordem (sic) em todas as capitais das obras mais importantes. É urbanização de favelas, é saneamento básico, é casa para as pessoas morarem, é rodovia, ferrovia, portos, aeroportos, ou seja, essa é uma coisa extraordinária. Então, quando o estado arrecada um pouco mais, o estado, então, tem fôlego para fazer aquilo que outros governos não tiveram condições de fazer porque a situação econômica não era tão favorável como está hoje. Por isso eu disse no último dia trinta em Alagoas que eu espero que depois que eu deixar a presidência da República, nunca mais o Brasil eleja um presidente que não tenha sorte, ou seja, todo mundo que for eleito tem que ter muito sorte, porque sem sorte ninguém vira goleiro titular do Corinthians ou da seleção brasileira.



Heródoto: Presidente, o senhor tocou agora a pouco na questão do déficit das contas correntes do país. O que o governo vai fazer para impedir que esse déficit possa acumular até o final do ano, como prevê aí alguns analistas econômicos?

Lula: Estamos trabalhando. Estamos trabalhando, Heródoto. Eu tenho feito sistematicamente reuniões com o ministro Guido (Mantega), com o presidente do Banco Central, com o ministro do Planejamento. Está dentro disso a idéia de lançar a política industrial com forte incentivo às nossas exportações. O Brasil precisa se transformar, sabe, numa plataforma de exportações de vários produtos que nós fabricamos, não apenas commodities, mas, sabe, de carros, de telefone celular, de software, ou seja, por isso é que nós vamos lançar a política industrial, para ver se ela contribui para a gente exportar muito mais e fomentar e incentivar os nossos exportadores.

Heródoto: Presidente, já que nós estamos falando de exportação e importação, a Receita Federal está em greve há uns 40 dias, fazendo um série de reivindicações. Me parece que o poder executivo ia apresentar um projeto no Congresso que era um projeto que regulamentaria a greve dos servidores públicos. Eu pergunto ao senhor o seguinte: esse projeto realmente existe e vai ser iniciativa do poder executivo.

Lula: Veja, nós tínhamos intenção quando o Ricardo Berzoini estava no governo, o (Luiz) Marinho, ministro do Trabalho, a gente queria que fosse feito esse projeto até que surgiu a possibilidade da Suprema Corte tomar uma decisão numa votação. E a Suprema Corte votou esses dias. Tem uma decisão do presidente Gilmar (Mendes), sabe, em que o governo vai descontar os dias dos servidores que estiverem em greve. Ora, meu Deus do Céu, eu primeiro defendo a liberdade da autonomia sindical. Segundo, eu defendo o direito de greve, Agora, as pessoas precisam compreender que eu ganho um salário pelos dias que eu trabalho, pelas horas que eu trabalho. Ora, se eu não trabalho, quero ficar em greve 30 dias, 20 dias, 40 dias, 50 dias, e eu pago o salário, isso não é greve, é uma férias. Então, a ordem que o Ministério do Planejamento tem é descontar os dias das pessoas que estão em greve. Nós temos mesa de negociação. Sabe, agora muitas vezes, as pessoas querem aquilo que o estado não pode pagar. E se o estado não pode pagar, não vai pagar. Se o estado puder pagar, nós vamos fazer acordo e vamos atender como temos atendido 100 por cento das categorias nesse país. Eu sou amplamente favorável ao cumprimento da decisão da Suprema Corte. Não trabalhou, não ganha. Portanto, e não dá para no governo fazer como numa indústria metalúrgica, ou seja, a Advocacia Geral da União entra em greve e a Justiça decide 30 por cento vai trabalhar. Eu não posso perder 70 por cento dos processos que estão contra o governo. Eu preciso de 100 por cento da advocacia trabalhando. Então, eu penso que foi importante a decisão da Suprema Corte. E se for necessário, eu tenho certeza que a gente conta com o apoio dos trabalhadores da iniciativa privada, você tem que mandar um projeto de lei regulamentando a greve e regulamentando, ao mesmo tempo, a contratação coletiva do trabalho. Nós não queremos que o servidor público seja tratado, também, na relação como estado, como se fosse de segunda categoria. Eles têm o direito de ter a negociação coletiva, sentar na mesa, sabe, e ter até o direito de fazer greve, como eu tinha quando era metalúrgico. Agora, a greve tem um custo. Qual é o custo? É não receber o dia que não trabalhei.


Heródoto: Presidente, já que nós estamos falando de direitos trabalhistas, os movimentos trabalhistas no país estão lutando pela diminuição das horas de trabalho semanais de 44 para 40. O senhor acha que nós estamos mais longe ou estamos mais perto disso?

Lula: Olhe, eu passei parte da minha vida lutando pela redução de jornada de trabalho, né. Eu acho que ela pode significar um bem para o Brasil. O que eu disse para os dirigentes sindicais? Não fiquem esperando que o governo faça isso. Vocês podem construir um projeto de lei de iniciativa popular. Sabe, vá para a rua, vá pegar a assinatura dos trabalhadores e dêem entrada no Congresso Nacional num projeto que mobilize a sociedade em torno dele, para que, quando chegar ao Congresso Nacional, essas coisas estejam debatidas na sociedade. O que não pode é as pessoas imaginarem que o presidente da República pode, ele, fazer um projeto e mandar para lá, ou seja, que fica quase que uma imposição do governo. Não, sabe, eu acho que é um debate que o governo precisa fazer junto com a sociedade, junto com os sindicatos, juntos com os empresários, para ver se chega à conclusão. Se for, sabe, do ponto de vista da geração de emprego, da distribuição de renda, uma coisa palatável, que se faça. Se não for, vamos fazer no momento que precisa ser feito.

Heródoto: Presidente... ( Lula volta a falar) Lula: Teoricamente, nós geraríamos mais emprego.

Heródoto: Presidente, o senhor falou também dos gastos do estado. Foi aprovado no Senado, como o senhor sabe, um projeto do senador Paulo Paim aumentando o valor das aposentadorias para quem ganha acima do piso da previdência, e esse projeto agora vai indo para a Câmara. Se for aprovado na Câmara esse aumento dos aposentados, o senhor vai vetar?

Lula: (risos ) Eu tinha certeza que vinha essa pergunta, não sei porquê. Veja, eu penso que, a Câmara deve agir com a sobriedade e com a autonomia que lhe é de direito. Tudo o que eles aprovarem, tudo o que for aprovado na Câmara ou no Senado, sabe, que vier para o presidente da República sancionar e aquilo não for compatível com a possibilidade do governo pagar, eu, enquanto presidente da República, vetarei. Com essas coisas eu não brinco. Primeiro, porque o dinheiro não é meu, é do próprio trabalhador. Segundo, eu só dou um presente para o meu filho em casa se eu tiver dinheiro para dar. Se eu não tiver, eu prefiro falar que eu não vou dar, do que fazer uma promessa "incumprível", como diria o (Antônio Rogério) Magri, para o meu filho. Então, é o seguinte: é humanamente impossível você fazer um fator previdenciário, você igualar para os trabalhadores aposentados o aumento que você dá para o salário mínimo, ou seja, não tem caixa, não tem dinheiro para isso. É simplesmente isso. Então, eu penso que a Câmara vai tratar de fazer o debate com maturidade e a mim não tem nenhuma preocupação. Quando chega naquela mesa ali, para sancionar ou vetar, o que pesa não é o comportamento pessoal do Lula, não é a vontade pessoal do Lula ser humano, o que pesa é a responsabilidade minha de uma coisa chamada
instituição, presidência da República, e aí eu ajo como presidente.


Heródoto: Presidente, uma outra pergunta aqui para o senhor é em relação ao balanço constante que a imprensa internacional faz do desmatamento no Brasil. O governo faz essa iniciativa (sic). Daí vem outras reportagens dizendo que o desmatamento tem aumentado constantemente. Qual é o balanço que o senhor faz. O senhor não disse que está sendo contido esse desmatamento?

Lula: O balanço que eu faço é altamente promissor. Os dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) têm demonstrado ao longo do tempo que nós já diminuímos, praticamente, em 59 por cento o desmatamento. Obviamente, que também há muita controvérsia sobre essa questão do desmatamento, ou seja, a fotografia de satélite do INPE mostra uma realidade. Eu acho que, além de ver a foto, você tem ir lá para saber se é desmatamento na selva amazônica ou é desmatamento de alguma área que já estava desmatada. Mas de qualquer forma, nós estamos criando no Brasil, Heródoto, a seguinte consciência: o Ministério do Meio Ambiente, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), nunca, nem de perto, tiveram as condições que têm hoje para fiscalizar o desmatamento e cuidar do meio ambiente no Brasil. Posso te dizer isso de coração. Agora, ao mesmo tempo, o Brasil é um país que precisa tomar consciência que, hoje, evitar o desmatamento é uma vantagem comparativa na relação internacional do Brasil. Não é uma coisa que um fazendeiro quer fazer e o governo não quer ou um fazendeiro quer fazer e a Marina não quer. Isso é muito pequeno. O que precisa ter é o seguinte: o fazendeiro estar tomando consciência de que se ele desmatar de forma ilegal, sem autorização, ele estará criando um problema para o Brasil na sua relação comercial, porque daqui a pouco começa a surgir na União Européia não compre carne do Brasil, que desmatou; não compre soja do Brasil. Eu tenho alertado tanto os produtores quanto a ministra do Meio Ambiente, quanto o ministro da Agricultura, de que o Brasil está virando gente grande nesse mundo comercial. E que, portanto, cada palavra nossa merece muita...muita reflexão e muita responsabilidade. Porque eu estou vendo agora propaganda lá fora de que o gado zebu não é gado, de que a cana-de-açúcar está na Amazônia. Mentira, ela não está na Amazônia e o gado zebu é um gado de qualidade. Por que estão falando disso do Brasil agora? Porque o Brasil deixou de ser coadjuvante. O Brasil passou a ser artista principal e, portanto, as pessoas vão fazer guerra comercial com o Brasil e nós temos que ajudar o Brasil. Então, o não desmatamento é uma vantagem comparativa para o Brasil e nós precisamos cuidar disso com muito carinho. Nós queremos contribuir para desaquecer o planeta, nós achamos que a cana-de-açúcar é o melhor instrumento, a melhor cultura para você produzir o etanol. Não sei por que os países que assinaram o protocolo Kyoto não têm nenhuma tarifa para importação de petróleo e metem tarifa na importação do etanol brasileiro. Eu vejo o etanol e vejo o biodiesel como a salvação para alguns países africanos e para alguns países da América Latina. Tenho dito aos presidentes e aos primeiros-ministros dos países ricos que eu não quero que eles desmontem as coisas deles. Sabe, eu não quero que eles desmontem a agricultura deles, não quero que eles desmontem, que vá plantar açúcar, que vá plantar álcool de beterraba, ou de arroz, não...não... isso é comida para o povo. Façam parcerias com terceiros países e plantem na África. Não compra petróleo da Arábia Saudita? Por que não custa comprar etanol de Gana? De São Tomé e Príncipe? Ora, meu Deus do Céu, é apenas uma questão de juízo. Cada um tem que dar a sua contribuição para a gente diminuir o aquecimento global. E o Brasil, enquanto, os chamado inteligentes do mundo, não encontram um outro combustível melhor para dirigir os carros sem poluir, o Brasil, humildemente, está oferecendo ao mundo etanol de muita qualidade, menos poluente, de duas vantagens: quando a gente planta cana, ela seqüestra o CO2; quando a gente produz o combustível, sabe, bota no carro, ele não emite CO2, ou bem menos. E a outra coisa é a geração de empregos, sobretudo, com o biocombustível trabalhando a pequena e a média propriedade agrícola. Nós estamos dizendo para o mundo que esse é um debate que o Brasil quer fazer e queremos fazer com todo o mundo, com ONG (organização não governamental), com os contras, com os a favor, vamos convocar uma conferência internacional em novembro, em São Paulo, para discutir a questão do biodiesel; e eu topo fazer esse debate em qualquer público, em qualquer cenário, porque eu acho que o Brasil tem argumentos para convencer que aqueles que são contra está errado. Aí começa a falar, ah não, o biocombustível está sendo responsável pelo aumento dos alimentos, quer dizer, pode ser que um dia venha a fazer e o dia que vier a fazer, eu serei contra. Mas é quase uma insanidade um cidadão dizer, um cidadão não perceber, quanto custa, sabe, o preço do petróleo no frete da comida que a gente come, ou quanto custa o preço do petróleo no fertilizante que a gente produz. É uma insanidade a pessoa não levar em conta que milhões de chineses estão comendo, indianos , brasileiros, latino-americanos, asiáticos, africanos estão comendo mais. Ora, então nós estamos com problema razoável, não um problema ruim. Nós temos terra, água, fotossíntese como em nenhum país do mundo, portanto, o desafio é plantar mais comida. Esse é um bom desafio. Plantar mais comida porque vai gerar mais emprego na agricultura, vai gerar mais renda, e vai baratear o alimento. Meu pai dizia, eu era pequeninho e ouvia os mais velhos dizer (sic), o Brasil, um dia, será o celeiro do mundo. Quem sabe, esteja chegando a hora.

Heródoto: Presidente, muito obrigado pela entrevista... Só uma última coisa, Presidente: incomoda o senhor o PT ser aliado do PSDB lá na prefeitura de Belo Horizonte?




Lula: A mim não, a mim é um acordo que o PT faz em função da realidade política local. Houve um tempo, Heródoto, houve um tempo em que a direção nacional do PT se reunia, como se fosse um conjunto de magistrados, e a gente definia lá de São Paulo, e eu digo isso não fazendo críticas ao PT, fazendo críticas a mim, era o presidente do partido. Então a gente decidia qual era a lógica da aliança política a ser feita, sabe, em Boa Vista; ou qual era a lógica da aliança a feita em Belém. Ora, quando no fundo, no fundo, as divergências que eu possa ter com o partido em São Paulo, não tem nada a ver com as divergência que, lá em Belém, o PT possa ter com outro partido político. Às vezes, nós queremos fazer uma aliança em São Paulo, e esse partido que nós queremos fazer aliança é o pior inimigo do PT em Belém. Então, a sabedoria de quem conhece a grandeza desse país, a diversidade política e cultural desse país é permitir que as cidades decidam aliança em função da realidade local.


Heródoto: Presidente, obrigado pela entrevista.

Lula: Obrigado a você. Pensei que você ia fazer alguma pergunta sobre o Corinthians, não fez nenhuma, nem parece mais corintiano.

Heródoto: Eu não vou fazer pergunta porque nós vamos passar para a segunda fase do campeonato do Brasil agora, Copa do Brasil. Obrigado.

Lula: Obrigado a você, Heródoto.

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