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16/11/07 05:10 / Atualizado em 13/12/08 10:55

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Junto com crédito e renda, câmbio dá impulso ao consumo

Nos primeiros dez meses de 2007, os consumidores brasileiros compraram 1,6 milhão de fornos microondas, 2 milhões de automóveis e 7 milhões de computadores. Em relação ao ano passado, estes volumes significam crescimentos de 20% a 50%. O mercado interno, tantos anos andando de lado, ressurgiu com uma força impressionante em 2007. Além do aumento do emprego, da recuperação da renda e do crédito farto e barato, o câmbio abaixo de R$ 2 - vilão de parte do setor exportador - deu um impulso extra à economia. Neste ano, até julho, a massa salarial medida em dólares ficou 19% maior.

A ajuda do câmbio ao consumo também vem na forma de preços menores, especialmente nos bens de consumo fabricados com itens importados. No acumulado deste ano até outubro, o preço de televisores, aparelhos de som e produtos de informática (feitos com muitos componentes importados) pesquisado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) recuou 6,18%. Nos setores com insumos locais, o movimento foi inverso - um par de sapatos ou sandálias ficou, em média, 4,81% mais caro.

Para José Roberto Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Associados, o forte crescimento da demanda interna de 2007 tem uma característica peculiar (e que ajuda a potencializá-lo): ele é generalizado em todas as faixas de renda. Do empregado com salário mínimo aos ricos, e passando pela classe média, todos os setores ganharam renda e poder de consumo este ano. Em 2004, último ano em que o país cresceu acima de 5%, o saldo líquido de empregos criados no país foi de 1,5 milhão, mas foram fechadas 270 mil vagas para salários acima de três mínimos, perfil que se manteve nos dois anos seguintes.

Este ano, até junho, o saldo negativo para vagas de salários acima de R$ 1 mil estava em apenas 65 mil (para um total de 1,1 milhão de vagas abertas nos primeiros seis meses) e, na avaliação de Mendonça de Barros, ele pode zerar até o fim do ano ou até ficar positivo. "A demanda por assalariados da classe média é um diferencial deste ano", avalia o consultor.

Além dessa "generalização", o crédito em expansão e os programas de transferência de renda ajudam a explicar o aumento de 9% nas vendas do varejo até agosto. No primeiro semestre, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,8% em relação a igual período do ano passado. A demanda doméstica (consumo das famílias, governo e investimento d o setor privado) cresceu mais - 6%.

Desde o segundo trimestre, os dados também indicam que uma parcela maior da demanda doméstica voltou a ser abastecida pela indústria local, embora as importações também estejam ficando com um pedaço expressivo do consumo. Nas contas da Rosenberg & Associados, a demanda interna continua sendo o principal fator determinante da expansão da indústria de transformação. No primeiro trimestre, ela contribui com 3,3% do crescimento médio de 3,7% da indústria. No terceiro trimestre, o crescimento médio subiu para 6,4%, com contribuição de 6,7 pontos percentuais da demanda doméstica e peso negativo do setor externo.

Para Francisco Eduardo Pires de Souza, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também assessor da diretoria do BNDES, a recuperação forte da indústria mostra que a demanda interna compensou, mais do que o esperado, o efeito negativo do câmbio. Além de 2007 ser o quarto ano consecutivo de crescimento da massa salarial real - período ao longo do qual a renda interna ganhou um impulso mensal adicional de cerca de R$ 10 bilhões, quando se olham para os dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) - os preços dos bens de consumo industriais ficaram mais baratos, proporcionalmente ao aumento do rendimento médio real.

Pires de Souza montou um índice que mistura esses dois indicadores (preços de bens industriais ao consumidor e salários) - tomando o início de 2004 como base 100, ele está hoje em 89. "Essa queda dos preços em relação ao salário é um estímulo à demanda por bens industriais", explica o professor da UFRJ. E essa é uma das razões, diz ele, para o forte crescimento do mercado interno. "Que surpreendeu", acrescenta.

Pires de Souza e Mendonça de Barros também acrescentam outro elemento importante para o consumo interno: o crédito farto. "Ocorreu, de fato, uma disputa de mercado, com prazos mais longos, com briga pelo consignado", diz Mendonça de Barros.

O professor Samuel Pessôa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), olha com mais cautela para o crescimento de 2007. Parte deste ritmo, diz ele, já aconteceu em outros anos, mas a economia brasileira era medida de forma menos completa. A mudança de metodologia de cálculo do PIB pelo IBGE explica parte da "surpresa" deste ano, diz ele. "Se antes esperávamos 3,8% e agora vamos crescer 4,5%, dois terços deste crescimento adicional ocorrem por informação de melhor qualidade", argumenta Pessôa.

O terço adicional, diz ele, tem duas fontes: a manutenção da estabilidade macroeconômica (não só de preços, mas de demanda) e o choque externo positivo, que vem desde 2002.

Junto com a estabilidade, a economia brasileira ganhou previsibilidade. "E o futuro ficou mais barato", resume Pessôa, argumentando que a estabilidade torna o crédito mais barato, seja para o empresário que vai investir, seja para o consumidor que vai adquirir bens. Desde o fim de 2002, a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) caiu um terço (de 9,75% para 6,25%) e o custo do crédito para pessoa física ficou 22% menor.

Rodrigo Celoto, membro do grupo de conjuntura da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe-USP), observa que a melhora de termos de troca com o exterior que favoreceu ao Brasil tem sido excepcional porque a demanda mundial está sendo puxada por países emergentes, como China e Índia, que demandam, justamente, bens em cuja produção o país é muito eficiente. "O cenário positivo que estamos vendo na economia brasileira começou com o cenário externo. Sem ele, a dinâmica não seria tão favorável", argumenta.

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