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28/07/2021 12:16 / Atualizado em 28/07/2021 12:45

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Fundador da Anvisa defende vacinação de todos e faz duras críticas ao governo no enfrentamento à Covid-19

Em entrevista à Fenae, o médico infectologista Gonzalo Vecina, que presidiu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária entre 1999 e 2003, observa que “aqueles que se expõem diariamente também ficam nessa condição”. Referência em saúde pública, o ex-secretário de saúde do município de São Paulo estima que o país alcançará a triste marca de 700 mil casos da doença, este ano: Com essa velocidade de vacinação, o horizonte é feio"

“É fundamental para a proteção da sociedade que todos se vacinem”. A veemente defesa é do médico infectologista e fundador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Gonzalo Vecina Neto. Presidente da Anvisa entre 1999 e 2003, Vecina reforça que os idosos e portadores de comorbidades têm maior risco de contaminação pela Covid-19. Pontua, contudo, que “aqueles que se expõem diariamente também ficam nessa condição”, citando os bancários neste contexto.

Mestre em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-secretário municipal de saúde da capital paulista, Gonzalo Vecina não poupa críticas ao governo federal na condução das ações de enfrentamento ao novo coronavírus; inclusive, em relação à demora para a definição de categorias prioritárias à imunização. Também faz uma análise sobre as filas e aglomerações nas agências bancárias, situação “propícia” à contaminação: “O que vi foi a desorganização. As filas que a gente viu para o pagamento do auxílio emergencial são uma coisa irresponsável”.

Sobre a inclusão dos bancários no grupo prioritário de vacinação, o médico destaca: “Eu vi os bancários brigando por isso. Mas, não ouvi a voz da Caixa frente ao Ministério da Saúde ou das secretarias [de saúde] para que os bancários fossem vacinados”. Referência em saúde pública, o médico estima que o país alcançará a triste marca de 700 mil casos da doença, este ano. “O horizonte é feio”, lamenta.

Confira a entrevista concedida à Fenae por Gonzalo Vecina: 

Fenae: Os bancários permanecem à frente do atendimento à população. Levantamento do Dieese mostrou que a quantidade de óbitos entre empregados da Caixa Econômica Federal mais que triplicou. Desde o início da pandemia, os trabalhadores do banco vêm pedindo para serem vacinados contra a covid-19; inclusive, em proteção também à sociedade, já que eles atuam em ambientes fechados, com recorrentes filas e aglomerações em agências, e muito expostos à contaminação. Como o senhor analisa esse quadro e a importância da inclusão dos bancários da Caixa, pelo Ministério da Saúde, no grupo prioritário de vacinação? 

Gonzalo Vecina: Esse quadro merece um olhar específico da saúde pública. O fato é o seguinte: não há dúvida nenhuma que o bancário é um profissional que está na linha de frente, enfrentando a epidemia, correndo um risco importante. A decisão coletiva de quem faz parte do grupo prioritário deve ser [coordenada] por uma comissão, um grupo de técnicos nomeado para isso. O Ministério da Saúde é o órgão federal que gerencia a assistência à saúde e é quem deve nomear essa comissão. A sociedade também deve ter o direito de se manifestar. É assim que deveria ter sido feito desde a primeira lista de vacinação [prioritária]. 

Fenae: Essa discussão e a definição dos grupos para vacinação prioritária estão atrasadas no Brasil?

Gonzalo Vecina: Claro que estão. Esse governo é muito incompetente. É impressionante. O Queiroga [Marcelo Queiroga, ministro da Saúde] tenta fazer as coisas certas, só que ele não pode falar muito porque pode ser demitido pelo chefe dele [em referência ao presidente Bolsonaro], que não acredita em vacina. 

Fenae: A vacinação coletiva, a vacinação das pessoas do grupo prioritário, é fundamental para a proteção da sociedade?

Gonzalo Vecina: É fundamental para a proteção da sociedade que todos se vacinem. Dentro de “todos se vacinarem”, temos que identificar quais são os grupos prioritários. O que é um grupo prioritário? É um grupo que está mais exposto à doença ou que tem maior risco. A gente sabe que quem tem maior risco são os idosos e portadores de comorbidades. Mas, aqueles que se expõem diariamente também ficam nessa condição. O grande problema é que tem muita gente que se expõe diariamente. O bancário, o motorista de ônibus, o trabalhador de saúde, os professores se expõem. Aí é que eu digo que precisa de um consenso. 

Fenae: Como o senhor avalia aquele cenário que vimos e ainda continuamos vendo nas agências bancárias, com filas e aglomerações? O que faltou para a proteção não só dos bancários como também da população?

Gonzalo Vecina: O que vi foi a desorganização. Poderia ter sido mais organizado. O setor bancário tinha informações e diferentes alternativas para não ter tido aquelas aglomerações, que, assim como locais fechados, propiciam a transmissão da Covid-19. Na maioria das agências — fechadas e com ar-condicionado — não tem circulação de ar. Estamos em um momento, no Brasil, que tudo está ruim. Existe fome no país. Existe coisa mais grave do que ver gente com fome, criança que não está tendo acesso à comida e ficando desnutrida? Nós estamos vendo isso, de novo, no Brasil. Voltamos a ter insegurança alimentar. As filas que a gente viu para o pagamento do auxílio emergencial são uma coisa irresponsável.

Fenae: A Caixa Econômica Federal poderia ter atuado para proteger mais os empregados do banco e, consequentemente, a população atendida por eles?

Gonzalo Vecina: É aquela história da organização das filas e do distanciamento social; neste sentido, eu acho que sim. E se colocado [a direção da Caixa] mais duramente em relação a essa questão da prioridade [inclusão dos bancários no grupo prioritário de vacinação]. Eu vi os bancários brigando por isso. Mas, não ouvi a voz da Caixa frente ao Ministério da Saúde ou das secretarias [de saúde] para que os bancários fossem vacinados. 

Fenae: Como está, atualmente, o potencial médio de contaminação de uma pessoa para outra?
 

Gonzalo Vecina: Em relação à Variante Gama do novo coronavírus, prevalente no Brasil, cada pessoa infectada contamina, em média, mais 2,5 pessoas. Agora, está entrando aqui a Variante Delta, com 95 casos oficiais e quatro ou cinco óbitos. Estudos feitos em países onde esta variante [Delta] está passando mostram que cada pessoa infectada contamina mais quatro pessoas. 

Fenae: E não se vacinar? 

Gonzalo Vecina: Não se vacinar é uma loucura. Não se pode obrigar as pessoas a tomarem a vacina. Mas, a gente pode falar que uma pessoa que não se vacina deve ser demitida por justa causa se ela trabalhar na linha de frente, porque ela pode contaminar seus companheiros. 

Fenae: O senhor estima 700 mil casos no Brasil?

Gonzalo Vecina: Provavelmente e infelizmente, vamos chegar a esse número. Já estamos com cerca de 540 mil casos. Com a Variante Delta chegando no Brasil, a estimativa — até se conseguir vacinar todo mundo — é a gente chegar a 700 mil ou mais; possivelmente, por volta de novembro. Com essa velocidade de vacinação, o horizonte é feio. Atualmente, só 20% da população tomou as duas doses da vacina e 50%, uma dose, que ajuda a proteger. Com duas doses, a vacina suaviza os sintomas da doença.  

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