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16/06/2021 18:32 / Atualizado em 16/06/2021 18:39

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Demora do governo atrasa a produção de vacinas brasileiras contra Covid-19

Pesquisadores apontam que o desenvolvimento próprio é importante para baratear os custos da vacinação em massa. Uma unanimidade: a vacina 100% nacional permitirá distribuição mais ampla, rápida e barata da imunização em favor da população

Na luta contra a disseminação do novo coronavírus nas diversas regiões, o Brasil ainda patina no desenvolvimento de uma vacina 100% nacional eficaz e segura contra a Covid-19. As maiores dificuldades são provocadas pela falta de recursos federais e pelos erros de gestão, ausência de planejamento, logística e desinteresse do governo na definição de um plano nacional de imunização. O registro é de que há 20 projetos diferentes para obter imunizantes brasileiros, passo considerado essencial no combate à doença e na mobilização pelo fim da crise sanitária vigente. Busca-se, assim, baratear os custos da vacinação em massa e permitir a distribuição mais ampla, rápida e barata da imunização no país.  
 
No momento, todos os projetos brasileiros de vacinas contra a Covid-19 estão em estágio pré-clínico, aquele que realiza testes com a fórmula em animais, ou até mesmo no estágio de pesquisas in vitro, considerado anterior a qualquer outro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que, mundo afora, existem 267 imunizantes contra o coronavírus em fase de testes, sendo 83 fórmulas envolvendo voluntários humanos na pesquisa e outras 184 focadas ainda em modelos animais, a chamada fase pré-clínica.  
 
Apesar da falta de apoio governamental, diferentemente do que ocorre em alguns outros países, cientistas, startups e instituições públicas de pesquisa alimentam o otimismo com o avanço do desenvolvimento das vacinas nacionais. Recentemente, a ButanVac, do Instituto Butantan, recebeu aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar testes clínicos em humanos. Outras duas, embora em fase preliminar, também são consideradas promissoras: a Versamune, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (SP), e a Spintech, desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No caso da vacina Versamune, por exemplo, os estudos em animais foram finalizados, aguardando, agora, a aprovação da agência reguladora para a próxima etapa. 
 
Promissoras ainda são as pesquisas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que desenvolve outra vacina cuja fase de testes com animais será encerrada até o fim do ano. Esse imunizante, com tecnologia de produção 100% local, apresenta características multifuncionais e poderá ser recombinado para servir como vacina para outras doenças, como dengue, zika vírus, leishmaniose e chikungunya.  
 
Outra experiência com tendência a ser bem-sucedida é a vacina 2H120 Defense, ainda em fase pré-clínica, que surgiu de uma pesquisa no programa de doutorado da Universidade Estadual do Ceará (UECE). No estudo, os pesquisadores utilizaram anticorpos relacionados ao combate a um coronavírus aviário e conseguiram chegar em resultados animadores na geração de imunidade.   
 
Entretanto, a realidade dos pesquisadores continua marcada por cortes e incertezas. Muito em função do descaso do governo federal, cujos exemplos se sucedem no país. A Versamune, após veto do presidente Jair Bolsonaro, ficou sem um crédito extraordinário de R$ 200 milhões para a execução das diversas fases de testes. O financiamento enviado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) foi de apenas R$ 3,8 milhões para a fase pré-clínica, já concluída. O consórcio que desenvolve o imunizante busca captar mais R$ 30 milhões para viabilizar as fases I e II, após aval da Anvisa. Só que, até o momento, nenhuma sinalização foi dada. Esse percurso, por outro lado, é agravado pela frágil estrutura brasileira em relação a centros imunológicos ou unidades fabris capazes de produzir vacinas, descortinando assim a mais aguda crise de financiamento da ciência nos últimos anos.   
 
Sergio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), denuncia o fato de o Estado brasileiro revelar interesse praticamente nulo em ter um imunizante 100% nacional, mesmo com a mobilização causada pela pandemia e com repasses do MCTI. Ele considera a produção de vacinas brasileiras contra a Covid-19 um passo estratégico para garantir a autonomia nacional diante do alto custo de insumos e da escassez de imunizantes no mercado internacional.   
 
O presidente da Fenae cita que o desenvolvimento de vacinas no Brasil traz vantagens como menor custo, independência de insumos vindos do exterior e controle da produção. A opção por esse caminho, segundo Takemoto, prepara o país para a situação de a pandemia persistir de tempos em tempos, como ocorre com a gripe, devido às mutações no vírus. “O acesso a vacinas e insumos é fundamental para assegurar condições de proteger e promover a saúde da população”, destaca.   
 
Outro alerta feito por Sergio Takemoto diz respeito à importância de reconhecer a doença do novo coronavírus como acidente de trabalho. O dirigente lembra ainda que a Fenae, junto com a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), vem mobilizando-se e lutando desde o início da vacinação pela inclusão da categoria bancária nos planos nacional, estadual e municipal de imunização, tendo como referência a reivindicação por vacina já para todos.  
 
Na Caixa Econômica Federal, em particular, a mobilização pela vacinação em massa contra a Covid-19 articula-se com o movimento pelo fim dos ataques ao banco público e social, por melhores condições de trabalho e pelo fim das metas desumanas nas unidades, dentre outras pautas. “Os empregados do banco público sempre estiveram na linha de frente na pandemia, atendendo a população em agências lotadas e pouco ventiladas, ou com falta de janelas e de abertura para o ambiente externo, durante o pagamento de políticas públicas como o auxílio emergencial”, conclui.  
 
Mesmo a passos lentos, mais vacinas estão sendo desenvolvidas por universidades públicas em parceria com empresas privadas. Isso deverá contribuir para o avanço científico e maior autonomia do Brasil nessa área, dado ser grande a chance de haver necessidade de novas campanhas de imunização contra a Covid-19 nos próximos anos. Atualmente, todas as vacinas aplicadas no país ainda dependem de insumos estrangeiros.  
 
É certo ainda que a tecnologia de produção testadas no desenvolvimento de vacinas brasileiras apresenta baixíssimo custo e condições no futuro para uma soberania tecnológica, que hoje tem castigado a sociedade brasileira, com a demora na chegada de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) da Índia e da China. 
 
No cenário brasileiro de combate à Covid-19, em que o país registra recordes de mortes, a imunização é a principal aposta para o controle da crise sanitária, havendo a necessidade de garantir o acesso a doses para cada brasileiro. É por isso que startups e universidades públicas apostam no desenvolvimento de vacinas 100% nacionais, pensando em campanhas de imunizações para o próximo período.

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