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19/11/2020 17:00 / Atualizado em 19/11/2020 17:04

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Caixa desocupa Barrosão depois de 50 anos, um dos símbolos históricos da luta dos empregados

Sede do banco no Rio serviu de palco para greves e protestos que garantiram conquistas como a jornada de 6h e o direito à sindicalização. Mobilização contra o desmonte dos bancos públicos e em defesa dos direitos dos trabalhadores permanece

Referência icônica das mobilizações democráticas no centro do Rio de Janeiro, e popularmente conhecido como Barrosão, o prédio da Avenida Almirante Barroso é um verdadeiro relato vivo da história dos empregados da Caixa Econômica Federal e da classe trabalhadora do Brasil, unindo momentos de lutas e conquistas em defesa de direitos e por melhores condições de trabalho. O local, símbolo de uma cultura de resistência, será definitivamente desocupado pelo banco público no próximo dia 30 de novembro, conforme anúncio feito no último dia 6 pela gestão Pedro Guimarães.

Por 50 anos, o Barrosão abrigou a maior agência bancária da América Latina. Apesar de toda essa bagagem histórica e cultural, a antiga sede da Caixa no centro da cidade será totalmente esvaziada. O prédio foi cenário da maior greve dos empregados, paralisação de 24h pelo direito à sindicalização e pela efetivação da jornada de seis horas para todos os trabalhadores do banco, deflagrada em 30 de outubro de 1985. Um contingente de 95% dos bancários lotados no prédio da Almirante Barroso será transferido para o edifício Passeio Corporate (rua das Marrecas), também no centro do Rio, enquanto uma parte de outros setores será realocada para um prédio no Porto Maravilha, antiga Zona Portuária.

Inicialmente, como parte de muita mobilização e negociação com os representantes do banco, a luta contra a mudança para o Porto Maravilha faz parte da história de conquistas dos empregados da Caixa, por ter sido a última atividade de destaque no Barrosão desde a greve de 1985. O presidente da Apcef/RJ, Paulo Matileti, explica o porquê de tudo: “A unidade localizada na Avenida Almirante Barroso simboliza a nossa resistência contra o retrocesso. Mesmo com a mudança de um prédio para outro, a história de mobilizações jamais será apagada e irá continuar. Com a atual ameaça de privatização ensaiada pelo governo Bolsonaro e o novo Plano de Demissão Voluntária (PDV), anunciado pela direção da Caixa, sem que ao mesmo tempo ocorressem novas contratações, o papel público e social do banco está em risco mais uma vez”.

Na época, ainda em 2017 e com o apoio da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), a Apcef e o Sindicato dos Bancários do Rio coordenaram um abaixo-assinado com mais de 1.500 adesões de empregados, encaminhado para a direção da Caixa, em Brasília. O documento pontuava os riscos diários aos trabalhadores, caso fossem transferidos para a Zona Portuária, por conta da violência e falta de estrutura. Na ocasião, foram realizados protestos contra a mudança. Esse movimento culminou com o histórico abraço ao prédio do Barrosão. 

Segundo Matileti, tudo que foi conquistado não veio de graça e foi fruto de muitas lutas, manifestações, protestos e greves, com esse movimento culminando em importantes conquistas. “Mesmo que essa transferência ocorra para um prédio comercial, os trabalhadores não vão desanimar. Nada vai barrar a mobilização dos empregados. Temos muitos desafios pela frente e muitas outras batalhas para ganhar. A luta na Caixa é contra a retirada de direitos dos empregados e em defesa do povo brasileiro”, declara o presidente da Apcef/RJ.

Nas unidades da Caixa, no Rio de Janeiro, o comentário que se ouve é de que não haverá mais greves ou paralisações na área-meio do banco, uma vez que o prédio Passeio Corporate, já apelidado de Marrecão, é comercial. No local, funciona diversas empresas particulares. O presidente da Fenae, Sergio Takemoto, acredita que nada impedirá a mobilização da categoria, sobretudo diante da ofensiva privatista contra o patrimônio público brasileiro. “São muitos os desafios: a defesa da Caixa 100% pública, o Saúde Caixa, a contratação dos aprovados em 2014 e a defesa da Funcef, entre outras questões. Vamos continuar mobilizados e estamos dispostos a enfrentar as ações do atual governo, que atua para destruir os bancos públicos e retirar direitos dos trabalhadores”, denuncia. 

Sergio Takemoto lembra que, entre os anos de 1994 e 2002, durante o governo do PSDB sob a condução de Fernando Henrique Cardoso, a categoria se organizou e impediu a venda para o capital privado de estatais como a Caixa, o Banco do Brasil e a Petrobras. Agora, segundo ele, face a um governo de extrema direita, não será diferente. “Nenhum direito a menos e pela manutenção do banco 100% público, social e forte são lemas essenciais para o movimento nacional dos empregados da Caixa”, afirma. Ele diz que ícones como o Barrosão inspiram e têm a capacidade de ajudar o processo de resistência contra a precarização do trabalho e o desmonte do banco.

Mobilização permanente

Desde 2017, quando a direção da Caixa anunciou que ia desocupar o Barrosão, as entidades representativas dos empregados travam uma luta com a gestão do banco para assegurar que a realocação das unidades instaladas no prédio da Avenida Almirante Barroso ocorra para uma área segura e com infraestrutura de transporte e serviços. Na época, a intenção da empresa era fazer a transferência para o Porto Maravilha, na Zona Portuária da cidade, uma área considerada violenta e sem estrutura adequada. Graças à pressão dos trabalhadores, em julho de 2018, o banco recuou e anunciou que as unidades seriam transferidas para o edifício Passeio Corporate, localizado na Cinelândia.

O assunto voltou a ser motivo de preocupação da Apcef/RJ e do Sindicato dos Bancários do Rio, por conta de declarações dadas pelo presidente da Caixa, Pedro Guimarães, de que tem a intenção de transferir os empregados do prédio da Almirante Barroso para a região portuária, inclusive os que já estão na nova sede.

“Essas declarações, em um primeiro momento, causaram surpresa e indignação. Se essa medida se concretizar, será um grande retrocesso. Os trabalhadores se recusam a ir para o Porto Maravilha, porque a área portuária é atualmente uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, com altos índices de assaltos, tiroteios, pouquíssimos transportes públicos e sem infraestrutura. Além do mais, desistir da sede da Caixa no prédio Passeio Corporate é jogar dinheiro público pela janela, pois a empresa terá que arcar com os elevados custos previstos para o distrato”, alerta Paulo Matileti.

Foram transferidas do final de 2018 até agora para o Passeio Corporate nove áreas, entre elas a Auditoria, Corregedoria, Segmento Exclusivo e SR Centro. A conclusão da mudança dos mais de dois mil trabalhadores estava prevista para junho deste ano. “Os bancários já estavam conformados com a mudança para o Passeio Corporate, apesar do valor sentimental e histórico do Barrosão, palco de grandes mobilizações da categoria”, esclarece Matileti. Segundo ele, as novas instalações estão situadas em local mais seguro e que apresenta melhor mobilidade.

A luta das entidades representativas e dos trabalhadores conta com o apoio da Fenae. Em dezembro de 2017, o Conselho Deliberativo Nacional (CDN) da Fenae, formado por presidentes de Apcefs dos 26 estados e do Distrito Federal, aprovou moção em defesa da segurança dos empregados da Caixa Econômica Federal lotados no edifício Almirante Barroso.

“Nossa maior preocupação sempre foi com o bem-estar dos trabalhadores do banco. Não podemos concordar com medidas que coloquem em risco a integridade física deles e precarize ainda mais as condições de trabalho”, destaca Jair Pedro Ferreira, diretor de Formação da Fenae. Na época, o dirigente exercia o cargo de presidente da Federação.

Para Carlos Alberto Oliveira Lima (Caco), diretor de Esportes da Fenae e vice-presidente da Apcef/RJ, o processo de desmonte da Caixa passa pelo ataque a algumas simbologias. “O prédio da Almirante Barroso é histórico. Quando se fala em Caixa no Rio, a população se reporta automaticamente ao edifício-sede do Barrosão.  Desaparecer com esse símbolo, no lugar de reformá-lo para manter a grande referência, fragiliza o banco público e abre caminho para tentar privatizá-lo”, pondera Caco. Ele questiona o fato de as atividades do banco público perderem com a lógica de áreas espalhadas, no lugar de todos os setores da empresa estarem concentrados em um único espaço. 

De acordo com ele, quem pagará o pato pela desocupação completa do Barrosão é o trabalhador, obrigado a deslocar-se para outros espaços, saindo de uma sede própria para outra alugada. “O prédio da Almirante Barroso, além de agências da Caixa, era referência por funcionar como Conjunto Caixa Cultural em prol da agenda da cidade. Isso tudo foi fechado, o que é um grande retrocesso sob os diversos ângulos de análise”, complementa.

Desmonte da cultura 

A desocupação do prédio da Almirante Barroso, culminando com o fechamento do Conjunto Caixa Cultural que funcionava no local, simboliza a maneira como o setor cultural, sob o governo Bolsonaro, vem sendo desmontado. Isso se dá por meio da institucionalidade e começou com a extinção do Ministério da Cultura (Minc).

O jogo é pesado e vem se traduzindo em cancelamento de editais devido ao conteúdo dos filmes produzidos, ameaça de extinção da Agência Nacional do Cinema (Ancine), esvaziamento da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) e nomeações ideológicas para cargos estratégicos no incentivo às artes, entre outras iniciativas. 

A descontinuidade das políticas públicas, a instabilidade institucional e o corte de verbas são alguns dos métodos usados pelo governo para atacar as produções culturais no país, combinada com a atuação direta da censura. Quanto mais autoritário o governo, maior sua preocupação em conter obras, patrimônios, instituições e artistas capazes de afrontar o status quo.

 

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